Ficha de Notícia

Artigo de Opinião

Os desafios do Outsourcing

Lisboa

25 de Maio de 2018


Desde há um par de décadas considerada uma ferramenta indispensável à gestão e organização das empresas, o Outsourcing sempre teve desafios na sua implementação, fossem eles pelo receio da perda de controlo aquando da externalização de um serviço, fosse pelo custo acrescido do mesmo, ou pela ausência de relação laboral entre uma organização e os colaboradores externos que desenvolvem as atividades nas suas instalações.

Por força do crescimento económico que temos vindo a assistir nos últimos anos, o Outsourcing debate-se hoje com uma dificuldade acrescida que lhe era desconhecida até há pouco tempo: a falta de recursos. De todos os quadrantes e perfis, sejam eles muito qualificados ou pouco qualificados, a escassez de recursos disponíveis no mercado de trabalho ameaça ser o maior desafio dos próximos anos.

Do ponto de vista da comercialização do Outsourcing enquanto produto, a solução pode, à primeira vista, ser de resolução fácil, e bastará seguir as regras básicas da economia, ou seja… com melhores salários, não haverá quem falte para ocupar as vagas. Já na ótica de quem adquire o serviço, a disparidade entre o orçamento disponível e a necessidade da qualidade desse mesmo serviço, pode vir a ter de ser repensada sob o ponto de vista estratégico.

No primeiro caso, e ainda que não resolva tudo, é indispensável que se valorize os recursos e lhes sejam dadas as condições remuneratórias para o correto e eficaz desempenho das suas funções, no entanto e para que seja possível salvaguardar esta questão de enorme importância, é fundamental que quem adquire o serviço coloque a si mesmo a seguinte questão: “Tendo em conta o budget que disponho, é-me possível exigir a qualidade que necessito?”.
Sem esta assunção de responsabilidade, que se entenda mútua, a visão de quem adquire e de quem comercializa o serviço tenderá a estar mais afastada. No entanto, e ainda que essa responsabilidade fosse assumida à partida, qual a garantia existente de que a qualidade do serviço é inequivocamente melhor apenas e só pela questão remuneratória? Quem presta o serviço deve claramente definir até onde é possível chegar em termos de qualidade de serviço mediante as objeções de orçamento que lhe sejam apresentadas.

Exigir mais esforço financeiro a um cliente, pressupõe um claro aumento das suas expectativas e exigências de qualidade, mas que nesta fase é claramente um risco menor do que recrutar tentando acomodar um budget baixo ou irreal. A realidade do mercado de trabalho atual obriga a uma frontalidade que nem sempre o cliente esteve habituado a ouvir, no entanto, esta transparência, combinada com a proximidade emocional, vai, a longo prazo, moralizar a relação entre o prestador e o cliente e permitir uma maior aproximação entre as expectativas criadas e o serviço entregue.

Os prestadores de serviços de Outsourcing, que consigam encontrar o equilíbrio entre o fator remuneratório, as necessidades de garantia de qualidade dos seus clientes e os budgets disponíveis, estarão mais preparados para o desafio do recrutamento e a escassez de recursos. Ainda que importe sublinhar que não existe uma solução única, nem que este equilíbrio resulte sem falhas em todas as empresas ou organizações, o que devemos reter ou consciencializarmo-nos enquanto empregadores é que nunca foi tão difícil recrutar e reter colaboradores, e essa perceção deve estar presente no dia-a-dia das nossas organizações.

A condição remuneratória é, e sempre será, um tema sensível na nossa sociedade, raramente consensual, mas que urge debater, pois vislumbra-se como uma tarefa impossível, continuar a recrutar tendo como única base, a rentabilidade.
 

Por: Ricardo Pires, Diretor Comercial da Talenter™.